sexta-feira, outubro 08, 2010

A VERDADEIRA JUSTIÇA

HOMO HOMINI  LUPUS

por Mario Arcangelo Martinelli

Nestes tempos modernos, o homem se afasta cada vez mais dos valores fundamentais, para se conduzir por convenções sociais, normas legais e ordens da burocracia.

Nos portamos como verdadeiros zumbis sociais, insensíveis, querendo sempre que nossos interesses prevaleçam sobre os dos outros mortais.

Nos acostumamos a pular sobre pessoas deitadas sobre as calçadas, nas certeza de que se tratam de bêbados ou drogados...

Andamos rápido com nossos automóveis, pelas ruas, sem preocupação com algum bicho-pedestre que possa atravessar de repente....

E aquelas pessoas esperando nas esquinas ? que esperem, se virem...e o outro motorizado do nosso lado ? Temos que passar à sua frente....

E assim vai....quando encontramos alguém que tem a coragem de fazer as coisas de forma diferente, até que gostamos, mas logo em seguida entramos na rotina de novo...

O despacho proferido pelo Magistrado abaixo reproduzido, é um bálsamo para as almas daqueles que ainda tem esperança no ser humano...

MARIO ARCANGELO MARTINELLI



DESPACHO POUCO COMUM

                   A Escola Nacional de Magistratura incluiu em seu banco de sentenças, o despacho pouco comum do juiz Rafael Gonçalves de Paula, da 3ª Vara Criminal da Comarca de Palmas, em Tocantins. A entidade considerou de bom senso a decisão de seu associado, mandando soltar Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, detidos sob acusação de furtarem duas melancias:


DESPACHO JUDICIAL...
DECISÃO PROFERIDA PELO JUIZ RAFAEL GONÇALVES DE PAULA
NOS AUTOS DO PROC Nº 124/03 - 3ª Vara Criminal da Comarca de Palmas/TO:
      
  

                   DECISÃO
                   Trata-se de auto de prisão em flagrante de Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, que foram detidos em virtude do suposto furto de duas (2) melancias. 



Instado a se manifestar, o Sr. Promotor de Justiça opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.

                   Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Ghandi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito alternativo, o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados e dos políticos do mensalão deste governo, que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional)...
                   Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém.  Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário apesar da promessa deste presidente que muito fala, nada sabe e pouco faz.
                   Poderia brandir minha ira contra os neo-liberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia....

                   Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra - e aí, cadê a Justiça nesse mundo?
                   Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade.
                   Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas: não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir.
                   Simplesmente mandarei soltar os indiciados. Quem quiser que escolha o motivo.

                   Expeçam-se os alvarás.
                   Intimem-se.

                               Rafael Gonçalves de Paula

                                        Juiz de Direito






Que Deus o abençoe, prezado Dr. Rafael e que sua coragem e magnanimidade sirvam de exemplo para os profissionais do Direito e para toda sociedade !


Mario Arcangelo Martinelli

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